Poesia Mendiga

POESIA MENDIGA



não espanta que minha poesia seja dura
se os olhos dela estão voltados pra essa cidade
e não pro brilho da lua
se os dedos dela batem cimento até tarde
e seus calos desconheçam tessituras
se minha poesia aperta o passo quando anda
com a bolsa bem presa ao braço
sem olhar pro vulto que a acompanha
não estranha que ela não encontre a alma gêmea
trombando na rua
mesmo que rime com paixão
minha poesia não usaria coração
quando o que aperta é a barriga
e não diga que minha poesia é pobre
que isso ela descobre todo dia trinta
poesia apressada vivendo entre os espaços
de um turno e outro de um trabalho e outro
de um tiro e outro de um trago e outro
pra minha poesia olham torto os seguranças de mercado
e os semânticos apurados passam e não a veem
ou fazem que não veem que é mais fácil
poesia mendiga o verbo de cada dia
e enquanto eles tentam reconstruir Atenas
poesia minha você se contenta apenas, apenas.

***

Com amor e medo, 
Jedielson Sant'Ana

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