Peça de Teatro - Hematoma



HEMATOMA (título provisório)



Melodrama familiar em 3 atos
Cenário: casa classe média, no palco se vê três espaços: uma sala com uma poltrona, uma cozinha com uma mesa de jantar, e, afastado como se uma parede o separasse, um quarto.
Duração: 20 minutos
Personagens
Miguel
Pai
Mãe
Juca
***
PRÓLOGO.
As cortinas abrem. Com palco escuro, em som indireto, ouve-se o início de uma briga.
VOZ – E aí, meninas? Para onde vocês estão indo?
VOZ DE MIGUEL – Ah, deixa a gente em paz, babaca.
VOZ – Olha, tão brabinhas... to até com medo agora. – pausa – Ei, ei, tamo falando com vocês... Ei! Ei escuta, seus viados, tamo falando com vocês! Ou as bichas são surdas também? (Pausa) eu tenho um remédio aqui, tenho um remédio muito bom pra vocês, pra ouvir muito bem.
Som de socos, gritos de um lado, risadas do outro, palavrões.
VOZ – Mano, tem gente vindo, bóra vazar, bóra bóra, deixa essas bichas aí...
Som de corrida. Pausa estendida.
***

PRIMEIRO ATO
CENA 1 – As luzes se acendem, sala de estar.
Miguel entra em cena por um lado do palco e sai pelo outro (como se estivesse entrando em seu quarto), seu pai está na poltrona com o controle remoto e voltado para o público como se houvesse uma televisão na sua frente (se for possível que haja uma fraca luz contra o rosto do pai para sugerir a televisão), ele não olha para Miguel.
MÃE (fora de cena) – Miguel? Miguel que chegou?
Ninguém responde. A mãe entra em cena enxugando as mãos num pano de prato, sai pela mesma direção que Miguel, volta para a sala.
MÃE – Aconteceu alguma coisa com ele.
O pai continua ignorando, mexe no controle remoto.
MÃE – Ei, aconteceu alguma coisa com o Miguel. Ele não quer abrir a porta... E... Você tá me ouvindo?
PAI – O que você quer que eu faça?
Pausa
MÃE – Fala com ele. Ele parece que... Ele não parece que tá bem.
PAI – Deve ser coisa dele.
A mãe se afasta da poltrona do pai, vai para o canto do palco que seria a porta do quarto de Miguel.
MÃE – Filho, aconteceu alguma coisa? Miguel? (pausa) Filho, pode abrir a porta?
PAI – Ei! Tua mãe tá falando com você!
MÃE – Filho?
PAI (levanta-se) – Venha aqui agora. Tua mãe tá falando com você.
Miguel entra em cena
MIGUEL – Que foi?
MÃE – Filho, que que foi isso?
Afasta a mão da mãe do seu rosto.
MIGUEL – Nada, mãe... nada demais.
MÃE – Como, nada? Você andou brigando? Você apanhou?
MIGUEL – Não. Eu... eu não quero ficar falando disso.
PAI – Tu anda se metendo em confusão por aí?
MIGUEL – Já disse que não quero –
PAI – Me responde!
MÃE – Calma, homem...
PAI – Calma, nada. Tu anda envolvido em coisa errada? Não quero filho mexendo com coisa que não deve, você tá me ouvindo? Responde, você tá me ouvindo?
Pausa.
MIGUEL – Posso ir para o meu quarto agora?
PAI – Não até você me dizer o que aconteceu. Esse roxo no olho aí. Vai dizer que caiu? Isso é marca de soco.
MÃE – Miguel, ninguém vai ficar com raiva de você, a gente só quer saber o que aconteceu...
MIGUEL – Foi assalto, tá bom? Foi assalto...
MÃE – Meu Deus, levaram alguma coisa?
PAI – Você viu o rosto dele, do assaltante? Foi na polícia?
MÃE – Eles fizeram alguma coisa para você, filho? Meu Deus, meu Deus, já falei, é muito perigoso sair à noite, filho.
MIGUEL – Ei ei, uma coisa de cada vez. Viu, por isso não queria falar nada. Eu... eu não vi, não sei tava escuro. Fui na polícia, mas... acho que não vai dar em nada, eles não levaram nada e também não ia conseguir dizer quem foi...
PAI – Você tava sozinho na hora? Alguém viu acontecer?
MIGUEL – Tava, tava escuro na hora também.
PAI – Assaltaram e não levaram nada?
Pausa, o pai olha fixamente para Miguel, que não parece querer responder.
MÃE – Filho, você tem que parar de sair tão tarde... Olha a hora, já passou da meia-noite, ainda bem que não aconteceu nada de muito grave.
MIGUEL – Tá mãe... posso ir pro quarto agora?
MÃE – Pode, vai sim, se você tiver com fome depois eu levo alguma coisa lá para você.
Miguel sai.
PAI – Você engoliu essa história?
MÃE – Quê? Como assim?
PAI – Assalto? Não levaram nada? Quem assalta tá com arma, tá com faca, não dá soco sem levar nada...
MÃE – Ai, você é muito... desconfiado... ele pode ter reagido, os homens tá drogados... Ai, quer saber, volta lá pra sua tv...
Pai olha para mãe.
PAI – Teu filho, você imagina ele reagindo? Isso tá mal contado. Ele... ele tá escondendo coisa.
Ele se senta na poltrona, a mãe se aproxima.
MÃE (sussurrando) – Você acha que o Miguel...
PAI – Ele chega nesse horário, sai todo fim de semana. Diz que tá estudando, mas eu sei bem... eu sei bem que esse guri anda fazendo. (troca de canal no controle remoto) Ele não me engana.

CENA 2 – Quarto de Miguel.
Miguel está ao telefone, andando de um lado para o outro. A mãe está batendo na porta pedindo para entrar, mas ele a ignora enquanto fala no celular.
MIGUEL – Eu sei, eu sei... mas você pode passar o telefone para ele, por favor? Eu entendo, mas... (pausa) E como ele tá? Melhor? Bom, diz pra ele que amanhã eu vou aí. Diz pra ele que... Alo? Alô?
Depois de uma pausa, abre a porta.
MIGUEL – Que foi??
MÃE – Filho, eu só queria... eu trouxe gelo, vem, senta ali... põe isso pra não inchar mais ainda...
MIGUEL – Deixa aí, depois eu ponho...
MÃE – Que depois, nada (o puxa pelo braço até a cama, levanta a cabeça e põe o pano com gelo no seu rosto, fica segurando enquanto conversam) Tem que por na hora, gelo é a melhor coisa pra esse tipo de machucado... filho, pior que eu vivo falando pro pessoal na igreja, essa cidade anda um perigo... até quando to voltando do culto já fico medo, peço para a irmã Lurdes me acompanhar sempre... imagina você... nesse horário... Miguel, por favor, tenta não sair tão tarde mais...
MIGUEL – Mãe...
MÃE – Ai, eu sei, eu sei meu filho que você já é adulto... eu sei que não devia me meter. Mas a gente é mãe. A gente se preocupa...
MIGUEL – Foi assalto, mãe. Pode acontecer com qualquer um. Pode acontecer de dia, de manhã quando eu vou trabalhar...
MÃE – Mas foi assalto mesmo, filho?
Pausa.
MIGUEL – Já tá bom o gelo, mãe. Pode soltar.
MÃE – Se for outra coisa, você pode me contar, filho. Eu vou aceitar. Você sabe que eu... (ao passar a mão pelas costas dele) Miguel?! O que é isso? Miguel, tua camisa tá ensopada de sangue...
A mãe se esforça em tirar a camisa dele, Miguel não deixa. Se levanta da cama, ela logo em seguida.
MIGUEL – Calma, calma, tá (pausa) esse sangue não é meu.
MÃE – O quê? Esse sangue é do assaltante?
MIGUEL – Ahn... eu não queria falar mais disso, mãe. Se você puder me deixar, eu só quero dormir.
MÃE – Miguel, esse sangue é do assaltante? Miguel! Me fala.
MIGUEL – Não... esse sangue é do meu amigo, o que estava comigo na hora.
MÃE – Filho... Eu sabia, eu sabia que essa história não estava cheirando bem.
Miguel se senta outra vez na cama.
MIGUEL (irônico) – Mãe, tudo bem, é isso mesmo, não cheira bem, é isso mesmo que você pensa, é tudo isso, mas... você pode (quase chorando) me deixar sozinho, agora? (Pausa. Miguel põe o rosto entre as mãos.) Amanhã a gente vê tudo, amanhã você pode brigar, pode me xingar, só... só me deixa sozinho?
Aqui a pausa é mais prolongada. A mãe anda de um lado para o outro, nervosa. Então para. Olha o filho ainda sentado na cama, se aproxima dele, senta ao seu lado.
MÃE - E ele tá bem? (silêncio) teu amigo... (ela hesita, toca o cabelo do filho) teu amigo... ele tá bem?
Miguel levanta o rosto.
MIGUEL – Ele... eu não sei. Ele não quis ir pro hospital, esse sangue... ele levou uma facada na mão... quando tava tentando se defender, sabe?... mas mesmo assim, era bom ir pro hospital, talvez precisasse levar pontos.
MÃE – Era com ele que você estava falando no celular?
MIGUEL – A irmã dele. Eu acho que... eu acho que ele não quer falar comigo, ou ela não quer que ele fale comigo... nem sei mais.
MÃE – Miguel, talvez... talvez assim seja melhor... filho, às vezes tem males que vem pra bem...
MIGUEL – E tem males que vem pra mau mesmo. Tem males que vem porque tem gente babaca que faz os males.
Miguel se levanta.
MIGUEL – Mãe, eu sei que você deve ter muita coisa pra digerir, eu sei que não deve tá sendo fácil e realmente te agradeço o apoio, de coração... mas agora eu só queria tomar um banho, dormir um pouco e esquecer que hoje existiu...
MÃE – Tá, eu vou deixar você descansar um pouco... não esquece de por essa roupa pra lavar, e pressiona o gelo no rosto até sentir que parou de latejar, entendeu?
MIGUEL – Tá bom, tá bom, boa noite, mãe.
MÃE – E Miguel, eu estou com você, lembra? Igual eu cantava quando você era pequeno (canta, como música de ninar) “O leão tá com fome/ ele come o que aparecer/ mas o leão não vai te fazer mal / ele sabe... Que eu to com você”. Filho, eu sempre vou estar do seu lado, sempre vou buscar o que for melhor para você, tá bom?
MIGUEL – Obrigado, mãe...
Mãe sai. Miguel pega o celular outra vez.
MIGUEL – Alô, ah, você de novo? Pode só me passar o telefone pro Juca, por favor? Tudo bem, ok, entendi, mas passa pra ele, eu quero ouvir isso da boca dele...
A luz vai se apagando gradualmente enquanto Miguel insiste ao telefone.

Cena 3 – Sala de estar da casa. O pai na poltrona.
MÃE – Eu vou me deitar. Vê se desliga a tv quando for dormir.
PAI – E ele? Você descobriu alguma coisa dessa história toda?
MÃE – Que história? Não tem nada para descobrir, foi assalto, ué.
O pai olha para o jeito que a mãe se move pelo palco, desconfiado.
PAI – Agora eu tenho certeza que não foi. Você tá estranha. Não me engana. Mas desde que ele chegou eu já sabia que tava tudo muito mal explicado.
MÃE – Você está louco. Nem tá falando coisa com coisa.
PAI – Ah, não to? Não to? Quer saber? Deixa. Não me importa nenhum pouco. Vocês que se virem, mas depois, depois se começa a ficar um comentário geral no condomínio não venham pro meu lado, eu não sei de nada, não me contaram nada, ok? Se virem!
Mãe sai de cena. O Pai continua falando, como que resmungando enquanto muda de canal.
PAI – Por mim pode fazer o que quiser. Pode sair de madrugada. Dormir fora. Nem quero saber. Até melhor não saber. Pensam que me fazem de otário, mas eu já sei, adianta esconder? Eu já sei... E não me importo nenhum pouco...
Enquanto ele troca de canal e resmunga, as cortinas se fecham.
FIM DO PRIMEIRO ATO.


SEGUNDO ATO
As cortinas se abrem. Com as luzes apagadas, em som indireto, notícias da televisão que o pai assiste.
VOZ DO JORNALISTA – Na madrugada de hoje mais um crime de homofobia aconteceu na nossa cidade. Segundo testemunhas que moram naquele prédio, dois rapazes passavam por essa rua quando foram cercados por um grupo de cinco homens. As câmeras de segurança do prédio registraram o momento em que eles foram agredidos, o homem de camisa preta dá seguidos socos nas vítimas, que caem na rua, logo em seguida um deles tira da calça um canivete e na imagem é possível ver como ele tenta deferir seguidos golpes. Nessa hora, moradores percebem o que está acontecendo e gritam da janela, o que assusta os agressores, que vão embora. O caso foi registrado na delegacia local, queixa prestada por Miguel de Souza Marques e Joaquim Brandão Neto, mas segundo o delegado, nas imagens não é possível identificar os agressores...

CENA 1 (essa é a cena mais difícil da peça, favor usá-la como teste de elenco) – As luzes se acendem, o pai está diante da televisão, perplexo.
PAI – Que porcaria é essa?! Hein? (levanta-se, e só nesse ponto percebemos que o pai manca, bate em alguma madeira como se fosse a porta do quarto de Miguel) Que droga é aquela que passou no jornal? Você pode me explicar?
Miguel entra.
MIGUEL – Por que você está gritando às sete da manhã?
PAI – Homofobia! Eles acabaram de dizer homofobia na tv. (a mãe entra) homofobia, crime de bater em viado. É isso que quer dizer. E deram teu nome! O jornal deu teu nome pra cidade inteira! É isso que foi esse teu tal assalto? Que porcaria é essa pode me explicar?
MIGUEL – Quer mesmo que explique? Se você quiser eu te conto tudinho, cada detalhe. Quer mesmo saber ou vamos continuar evitando falar do assunto. Porque já me poupa tempo, pai.
PAI (rindo, sarcástico) – Ah, eu sempre desconfiei, sabia? Sempre. Que tu era frutinha. E não era só eu, eu tenho certeza que muita gente já desconfiava. Meu filho viado. Bonito agora.
MÃE – Já chega! Que isso, nessa casa não se fala esse tipo de coisa.
PAI – Que tipo de coisa? É verdade! Ah, agora vou ter que falar bonito só porque teu filhinho decidiu soltar a franga. “homossexual” é assim que quer que eu fale? “afeminado”, é isso? Ou pode ser “diferente”. Lembra era assim que você falava. Ai, deixa ele, nosso filho é “diferente”, só isso. Não gosta de futebol, “é diferente”, não traz mulher pra casa “diferente”... eu sei bem o nome desse tal “diferente”...
MÃE – Já falei, já cheg...
MIGUEL – Não, deixa, mãe. Deixa ele falar (bate palmas, incentivando) isso, fala mesmo. Tava entalado na garganta, não tava? Agora pode soltar! Isso solta tudo! Viado, bicha, que mais, pai? Bóra, fala mais, to esperando!
PAI – E a gente aqui pensando que tinha sido assaltado, ah, com essa cara aí eu sei bem o assalto que queriam te fazer...
MIGUEL – Só isso? Só isso que você tem a dizer? Ixi, pai. Esperava mais do severo pai de família. Achei que passar o dia na frente dessa tv fosse te ensinar maneiras muito melhores de ofender alguém. Vamos lá, pai. Puxa da memória. Faltou pederasta. Faltou sodomita. Faltou –
PAI (apontando para ele) – Você cala essa boca se não é o teu outro olho que eu deixo roxo, moleque!
MÃE – Parem, parem, por favor...
MIGUEL – Quer saber, vou pro meu quarto.
PAI – Isso, vai lá. Faz igual você vem fazendo a vida toda, se esconde. Mas dessa vez vê se faz direito, se esconde melhor pra não ficar famosos no jornal, pra não ficar todo mundo sabendo o que que você faz nas horas vagas...
Miguel, que ia para o quarto, para, volta, pausa.
MIGUEL – Então é isso, não é? É o que os outros vão pensar, é isso que te incomoda? Mas quer saber, eu entendo, eu te entendo, pai. Para mim também era, o que meus colegas vão dizer quando souberem, hein? Vão rir de mim na sala, vão fazer piadinhas, todo o tempo da escola foi isso, o que vão pensar, o que vão achar. E pra vocês então! Eu morria de medo, meu Deus, minha mãe, tão cristã, vai morrer de vergonha. Meu pai, capaz de enfartar. Eu escondi por toda a minha vida porque tinha medo do que os outros iam pensar. (pausa) mas quer saber, pelo menos pra isso serviu o que aconteceu ontem. Pelo menos serviu pra eu não precisar esconder mais (apontando para o roxo no olho) Isso aqui, isso aqui sou eu. Isso aqui eu não tenho como disfarçar! Não tenho como fingir pra agradar você, pai. Isso aqui é o que eu levo por ser eu mesmo. Então sou eu, não é? Isso aqui é por andar na rua. Não, eu não tava fazendo nada do que você tá imaginando. Nada do que aparece nesses jornaizinhos de merda que você assiste. Eu tava só an-dan-do-na-ru-a. E ganhei isso aqui, pai. Você tem ideia do que é isso?
PAI (interrompendo) – Você não estava só andando...
MIGUEL (continuando) – Você tem ideia do que é tá andando na rua sabendo que se alguém te olhar feio você pode levar um soco na cara? Pai, olha pra mim. Pai! Eu tava com alguém sim. Com um homem. O teu filho tava com homem. Andando na rua. É errado isso agora? É crime? Se você tivesse andando na rua com um amigo seu alguém ia vir e dar um soco na tua cara?
PAI – Eu sempre soube que você... sempre soube que tinha coisa errada...
MIGUEL – Coisa errada é outra coisa, pai. (ri, seco.) Coisa errada é bater. Coisa errada é pensar que eu mereci mesmo. Isso que é errado. Porque tem gente que pensa que eu mereci, que o Juca mereceu, apanhar. Na polícia, na polícia eu vi na hora, na cara deles. (muda o tom de voz) ah ele pode fazer o que quiser, mas em público não. Em público ele tá pedindo... Andar na rua é tá pedindo?
PAI – Ah, vamos parar com essa historinha furada. Você sabe muito bem porque te bateram.
MIGUEL – Eu sei. Eu sei mesmo. Me bateram porque eu sou gay. Porque eu sou viado, pai. Me bateram porque olharam pra mim com o Juca e pensaram o que? A lá as bichas, foi o que disseram na hora, sabia? A lá as bichas. Sabe uma coisa que eu percebi, pai? É muito mais fácil ter ódio quando xinga assim. Você acha que eu tenho ódio de me chamarem de bicha? Da palavra? Não, não! Eu tenho ódio porque quem me chama assim não aceita que eu tenho um nome, que eu tenho uma história. Quem me chama assim, viado, bicha, é porque tem medo de ver que eu tenho um nome igual todo mundo, igual os filhos que eles tem em casa, os irmãos, os amigos. Miguel, a bicha aqui se chama Miguel. Estuda, trabalha. A bicha aqui, planeja mudar de cargo, comprar uma casa. A bicha aqui sonha em ir pros Estados Unidos. É esquisito, não é? Bicha sonha também. Bicha não tá aí na rua pra levar na cara, pra morrer a paulada. 
PAI – Quem que você quer convencer com esse discursinho, moleque?
MIGUEL – “Moleque”, você me chama de moleque, de “tu”. Você lembra a última vez que me chamou de filho, pai? Você lembra a última vez que me chamou pelo nome? Não quer ouvir? Não foi você que veio perguntando? Então é isso! É isso mesmo! Teu-filho-Miguel-é-bicha. Mas você sabia, não sabia, pai? Você sempre soube. E o pior é que eu sempre soube que você sabia. (pausa, abaixa o tom de voz) e a cada vez que eu via você virar o rosto pra mim, a cada vez que você evitava falar de mim para os seus amigos eu sabia mais... eu sempre soube fingir mais que você, pai. Na sua cara, no jeito de falar comigo, de agir, era como se você também tivesse uma marca dessas, um roxo desse aqui ó. Meu filho é uma bicha. Meu filho é uma vergonha pra mim.
Pausa, os dois em pé, frente a frente. 
MÃE – Agora não adianta essa briga toda, adianta? Miguel, vai pro seu quarto. Ainda é cedo. É domingo, volta a dormir...
PAI (a Miguel) – Eu quero você fora dessa casa.
MÃE – O quê? Não nada disso...
PAI – Já falei. Quero ele fora. Arrume as coisas, faça as malas.
MIGUEL – Tá bom, eu vou. É só isso?
PAI – É, é só isso...
Miguel sai.
MÃE – O que foi isso, homem?
PAI – Isso foi eu resolvendo o problema. Ele não quer ser desse jeito? Que seja, longe daqui.
MÃE – E para onde ele vai? Você pensou nisso? Aonde ele vai ficar?
Pai se senta na poltrona outra vez.
PAI – Isso ele que resolva... seu filho vai dar um jeito.
MÃE – Nosso filho. Não esquece, ele é nosso filho, nosso Miguel.
Mãe sai. O pai, depois de trocar de canal com o controle remoto, desliga a tv (apaga-se aquela luz sobre seu rosto), fica pensativo.

Cena 2 – Quarto de Miguel.
Miguel arruma suas coisas, apressadamente, a mãe bate na porta.
MÃE – Filho, pode abrir a porta? Posso falar com você? Miguel, por favor...
Miguel abre a porta.
MÃE – Miguel, você está mesmo levando a sério isso? Filho, ele só está de cabeça quente...
MIGUEL – Eu também tô, e é até bom. Até bom que já faço isso de uma vez.
MÃE – Mas pra onde você vai? Você não pode sair assim, sem rumo...
MIGUEL – Mãe, não se preocupa, eu trabalho, eu consigo alugar algum lugar, não é nenhum fim de mundo. Assim que eu tiver um lugar eu chamo você pra me visitar.
MÃE – Eu não queria que você fosse embora assim, depois dessa briga. Teu pai, teu pai, ele é estourado, você sabe. Mas com o tempo ele vai acabar entendendo... dê um tempo, por favor, e ele vai acabar caindo em si...
MIGUEL – Você acredita mesmo nisso? (ele ri, irônico) mãe, faz vinte e um anos que a gente espera ele cair em si... não vai ser depois dessa briga que vai acontecer.
MÃE – Então, só me dá uma chance... só um favor que eu te peço antes de você decidir ir. Filho, você podia me acompanhar hoje... pra igreja? Um dia só, só pra ver se você gosta, filho. Ia ser tão bom pra você... ser amigo dos jovens de lá. Sabe, as companhias...
MIGUEL (irônico) – Não, obrigado!
MÃE – Só um dia, que mal vai fazer?
Silêncio, a mãe se aproxima, com o olhar insiste.
MIGUEL – E fingir que sou igual a eles? Me fazer de hétero, porque eu acho que o pessoal de lá não vai gostar muito de mim do jeito que eu sou.
MÃE – Não digo fingir.. Filho, você entendeu... não é o que eu quero dizer.
MIGUEL – Não, não é fingir. É mudar, não é isso? (o tom é mais baixo que foi na cena anterior, com o pai) Vocês querem que eu mude. Que eu fique igual eles. Que eu goste de mulher, que eu case com mulher. Mãe, acorda, isso é fingir. Eu sou assim. Até consigo fingir, você sabe, esse tempo todo. Mas eu tô cansado, eu não aguento mais. Passei a vida fingindo. E vai até quando? Até quando a gente finge, mãe? (início de lágrimas) Entro pra igreja, mudo tudo em mim, eu posso fazer tudo igual você quer, igual eles querem, e se enganar direitinho, vou ser salvo, é isso? Para depois passar a eternidade no céu. Fazendo o que no céu? Fingindo. É isso? Nunca acaba a hora de fingir, eu nunca vou poder ter um descanso, ser eu mesmo?
MÃE – Você não devia falar assim dessas coisas... é sagrado.
MIGUEL – É aí que tá, eu nunca posso falar. Todo mundo pode falar. Você, o pai, o vizinho, que seja. Todo mundo pode falar por mim, agora eu, eu não posso.
MÃE – Miguel, eu sei que você tá nervoso...
MIGUEL – Eu não tô nervoso. (lágrimas) Eu tô puto.. puto e cansado. E faz tempo já. Faz tempo. Mãe, me escuta (pega a mão dela) Eu vou, e eu tô feliz por estar indo. Eu to feliz porque eu acho que vai fazer um bem muito grande, pra mim, pra vocês também. Eu espero a senhora lá, eu espero o pai também se um dia ele decidir mudar de ideia, mas por enquanto, ficar sozinho é a melhor coisa que eu faço por mim mesmo...
Pega as malas. Na sala, despede-se da mãe com um abraço, o pai não se levanta da poltrona. E Miguel sai.
FIM DO SEGUNDO ATO







TERCEIRO ATO (parte sob construção ainda)
Cena 1 (única) – A mesa de jantar está com arrumada, três lugares, trata-se de uma data especial.
MÃE – Eles vão chegar a qualquer momento. Você já está pronto?
PAI – Quase, também se chegarem, eles podem esperar um pouco... onde já se viu se arrumar tanto para ver parente.
Pai entra em cena.
MÃE – Nossa, como você está bonito. Nem lembro da última vez que te vi assim. Deixa eu arrumar essa gola, isso, bem melhor (pausa) escuta... por favor, essa é a primeira em três anos que ele vem pra cá, você sabe disso, então vamos tentar ter um jantar civilizado, sem xingar, sem brigar... você consegue fazer isso?
PAI – Eu não vou prometer isso, você sabe que se ele começar, eu vou responder...
MÃE – Começar o quê, homem? Ele só está vindo jantar. É a primeira vez esse tempo todo e eu só quero sentar na mesa e conversar sobre amenidades, como foi o trabalho, que que tem de novo. É só não entrar nesses assuntos...
Batem na porta.
MÃE – Ele chegou!
O pai senta-se a mesa, de costas para a porta. A mãe vai recebê-lo.
MÃE – Ai, meu filho! Que bom ver você e...
Miguel entra, e Juca entra logo depois. A mãe o cumprimenta também. Miguel se aproxima da mesa e fica frente a frente com seu pai, que se levanta.
MIGUEL – Boa noite, pai (aperta a mão dele), bem, esse aqui é o meu companheiro, Juca. Juca, esse é meu pai.
O pai olha para trás, surpreso.
PAI – Ahn... Eu, eu não sabia que você também...
MÃE – É que a gente imaginou que seria só o Miguelzinho. Mas fica à vontade, eu fiz comida pra vinte pessoas, então não vai ser problema... vou pegar um lugar para você.
A mãe vai até o outro lado do palco e volta arrastando uma cadeira a mais até a mesa.
MIGUEL – Na verdade, o Juca ia precisar viajar essa noite, resolver uma questão pro trabalho dele, mas como o voo só sai à meia noite, eu insisti pra ele vir... não é um problema, né?
MÃE – Não! Não, imagina. A gente fica até feliz que você pode aparecer... pra poder provar minha moqueca, que, modéstia à parte, é minha especialidade.
JUCA – Mal posso esperar...
A mãe se levanta, volta para a mesa com a caçarola, serve os pratos.
MIGUEL – E o senhor, pai... a perna ainda incomoda?
Pausa.
MÃE – O de sempre, ele ainda sente as dores quando o tempo tá para esfriar... dos pinos.
MIGUEL – Pai?
PAI (tom baixo) – É isso, ainda dói, mas dá pra aguentar.
MÃE – Isso, seu pai é forte, Miguel. Agora me conta, aquela casa que você tá morando, aquele bairro é tranquilo?
MIGUEL – Na verdade mãe, foi bom você ter chegado nesse assunto, tem uma coisa que a gente queria contar, foi até por isso que a gente aceitou o jantar... é que eu e o Juca, nós decidimos ir morar juntos, até o fim do mês a gente se muda. Decidimos ir morar mais perto do porto, já que no trabalho dele estão cada vez mais precisando que ele esteja lá na sede da empresa...
MÃE – Vocês vão mudar de cidade?
JUCA (feliz, olhando para Miguel) – E casar...
MÃE – Meus parabéns! É uma ótima notícia... só não esperava que vocês fossem mudar de cidade... Mas fico feliz, meu filho! (ao pai) Não é?
Silêncio.
MIGUEL – Pai, você quer falar alguma coisa?
PAI – Quer saber, pra mim já deu (levanta-se, vai em direção a poltrona) Eu tentei, ninguém pode dizer que não tentei, fico feliz por vocês, fico feliz que tá tudo dando certo, mas sinceramente...
Pai liga a televisão.
MIGUEL – Ah pronto, voltou pros jornais de sempre. Como pode você gostar tanto de assistir tragédia? O dia inteiro vendo crime.
MÃE – Volta aqui pra mesa, homem. Vamos jantar.
PAI – Continuem, comam vocês. Não quero estragar a comemoração...
Mãe se aproxima do pai.
MÃE – Você me prometeu, homem, que não ia estragar essa noite, por favor, volta para a mesa. Teu filho vai se mudar, teu filho tá feliz, não tem como você ficar feliz também?
PAI (irônico) – Eu tô, tô radiante.
MIGUEL – E eu achando que ia ser diferente, otário mesmo. (levantando-se) Quer saber. Vamos indo, Juca. Realmente já está na hora, a gente come no aeroporto...
MÃE – Não filho, não, por favor fica mais um pouco...
MIGUEL – Desculpa, mãe não é nada com a senhora. Eu sei quanto tempo a senhora vem preparando para a gente vir aqui. Só que eu não tenho que aguentar mais esse tipo de situação, muito menos o Juca. Eu já fui embora para não ter esse tipo de estresse. Se ele prefere agir assim, nem olhar pra minha cara, ok... direito dele, a casa é dele. Ótimo, passar bem. A gente manda um cartão...
Juca se levanta também.
JUCA – Foi muito bom conhecer vocês. Não sei se a senhora sabia, mas moqueca é meu prato favorito, e a sua, é uma delícia... o senhor também viu, foi um prazer.
Juca se despede com um abraço rápido na mãe de Miguel, e depois o próprio Miguel a abraça, agora mais demoradamente.
MÃE – Eu sinto muito, filho...
MIGUEL – Não se preocupa, mãe... eu sei que a culpa não é sua. Nem é culpa. Eu vou ficar bem, a gente vai seguir nosso caminho, tá tudo certo, viu?
Quando todos estão próximos da saída.
PAI – Espera.
Pausa. O pai desliga a televisão com o controle remoto.
MIGUEL – Pai?
O pai se levanta, vai até a mesa.
PAI – Certo, certo (pausa, só ele sentado à mesa, olha para o filho) Vamos terminar o jantar...
MÃE – O que você acha, filho? Tem tempo ainda?
MIGUEL – Ahn... eu acho que... não sei... o voo...
O pai se levanta, dá uma pausa, como quem toma coragem.
PAI – Miguel, você sabe que eu não sou de falar muito. Não vou começar um discurso. Eu... eu só... Por favor, podemos terminar de comer?
MIGUEL (olha para o Juca) – O que você acha? Ainda temos umas duas horas...
JUCA – Claro, seria um pecado não terminar de comer essa moqueca...
Sentam-se a mesa, a refeição prossegue algum tempo em silêncio.
PAI – Você soube que prenderam dois homens aqui na rua semana passada? Deu no jornal. Por baterem, homofobia. Será que não seriam os mesmos que te bateram daquela vez?
MÃE (irônica) – Ótimo assunto...
MIGUEL – Não, não, tá tudo bem. Pode ser, pai. Pode ser que sejam os mesmos.
PAI (ainda tímido) – Eles estão na décima quarta. Custódia. Um dia, quando vocês voltarem dessa viagem, você podia ir lá, ver se reconhece...
MIGUEL – Não sei se é uma boa ideia. Eu lembro, eu disse que não tinha os rostos deles, mas eu vi, lembro bem, uma coisa daquelas a gente não esquece... mas, não sei se quero reviver tudo aquilo...
PAI – Mas você tem. Tem que fazer eles apodrecerem na cadeia.
MIGUEL – Voce tem razão... acho que vou sim.
PAI – Se precisar, no dia eu levo você lá.
As luzes diminuem enquanto eles comem, para acenderem depois, sugerindo uma passagem de tempo.
MIGUEL – Bom agora sim, está na nossa hora... Daqui até o aeroporto, mais as filas... vocês sabem... mas a gente aparece. Depois que voltarmos, temos que arrumar as coisas para mudança, aí passamos aqui, falar com vocês.
MÃE –Isso filho, apareça mesmo. E trate de mandar o endereço da sua nova casa, não quero saber de filho meu solto por aí sem eu saber aonde.
MIGUEL (abraçando a mãe, rindo) – Claro, mãe...
Vai até o pai, que lhe estende a mão. Miguel aperta a mão dele.
PAI – A gente se fala, filho. E Miguel pensa naquilo que te falei, precisando eu te levo na delegacia, filho, e você dá parte. Tenho certeza que são os mesmos homens, certeza. Eu vi na câmera de segurança daquela vez. Você vai ver.
MIGUEL – Eu vejo sim, pai. Até mais.
Miguel e Juca saem.
A mãe olha orgulhosa para o pai, enquanto as luzes se apagam.

EPÍLOGO – Possível ser feito apenas com as vozes dos personagens, como no prologo, ou eles podem aparecer em cena sentados em duas cadeiras com uma luz focada apenas neles, a sugestão é de que estão num carro a caminho do aeroporto.
JUCA – Miguel, que isso. Amor, cê tá chorando?
Miguel (rindo e chorando) – Não, não... é que... eu não esperava que ia ser assim...
JUCA – Assim como?
MIGUEL – Que ia dar tudo certo...
JUCA – Que bom, foi até que bem legal. Sua mãe, maravilhosa. Uma delícia a comida dela. E o seu pai, bom, ele não te xingou em nenhum momento, né? Já é um começo...
MIGUEL – Não, foi bem mais que isso. Foi diferente. Ele, ele conversou comigo, de verdade. Daquele jeito dele, mas para mim foi como se a gente conversasse pela primeira vez...
JUCA – Que bom, amor. Eu fico feliz demais por você.
MIGUEL – Essa foi a primeira vez que ele me chamou pelo nome. Juca, você sabe o que isso significa para mim? É a primeira vez que eu me lembro que meu pai me chama pelo nome, que me chama de filho... é como se ele me visse finalmente. Como se visse como pessoa, como se me visse por quem eu sou...
Juca põe a mão sobre seu ombro, em apoio. Miguel enxuga as lágrimas.
JUCA – Chegamos. O voo sai em quinze minutos. (entreolham-se) Vamos?
MIGUEL – Vamos.
Os dois se levantam, saem da luz focada e somem na escuridão do palco.
As luzes se apagam, as cortinas fecham.
FIM DO TERCEIRO ATO.



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Com amor e medo,
Jedielson Sant’Ana

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