Calma, a cidade, mesmo quando mais deserta,
Comporta em si o que há de mais selvagem em cada viela,
da mesma forma na poesia,
que é etérea,
cabe com folga toda forma de milagre
como qualquer ditador que se preze já sabe
enquanto a poesia crescer incontrolavelmente
como a grama que entumece a cidade
nada está perdido, ainda há espaço para a verdade
como há espaço para uma rima vacilante
sobre amor adolescente que chega, se esgueirando,
desde o século XIX até as mãos de um menino em seu quarto
em sua noite trovejante de silêncio e mágoa
como a grama que entumece a cidade
nada está perdido, ainda há espaço para a verdade
como há espaço para uma rima vacilante
sobre amor adolescente que chega, se esgueirando,
desde o século XIX até as mãos de um menino em seu quarto
em sua noite trovejante de silêncio e mágoa
na Casa 1, para adolescentes expulsos de casa em nome dos valores –
estes sim, mais vazios que certas almas –, e o afaga.
A poesia nos abarca.
Bem verdade, ainda é tempo de espera, ainda é tempo de armas,
mas apesar de tudo, há poesia, faróis inteiros de poesia.
A poesia nos abarca.
Bem verdade, ainda é tempo de espera, ainda é tempo de armas,
mas apesar de tudo, há poesia, faróis inteiros de poesia.
E é como aquela velha história que minha mãe dizia
trinta homens se esforçam diariamente para evitar o nascer do sol
atrasam relógios, alongam o jantar, cerram persianas,
apagam minutas, calam os galos, se amarram às camas,
vedam multidões, proíbem jornais de noticiar que o dia raiou
isolam as praias e o seu calor
para só então descobrir, tontos de terror,
que era tudo inutilmente:
o sol selvagem sobre a cidade
sempre brilha mais forte que a gente.
***
Com amor e medo,
Jedielson Sant'Ana

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