Dos monstros do subsolo
Eu sei
(agora) e quem diria
Que sob o
rígido cimento do chão da cozinha
Corriam rios
inteiros de ódio
Enquanto
conversavam amenidades e sorriam
O mesmo
espanto de saber que nas ruas há silêncio
Mas no
profundo das telas
O que existe
de mais insidioso cresce fértil
Há todo um
novo evangelho do subsolo
Crescendo
com seus agrotóxicos por entre o trigo
Para dar voz
aos pobres donos de coisa muita
Que nunca
antes viram a luz
E querem
fogo
De calibre
trinta e oito
Para aliviar
o frio
E o medo
Eu sei
(agora) mesmo descrente
Como os
monstros conseguem esconder seus nervos
E garras e
dentes
Alinhados
nos seus ternos reluzentes
A arrastar
multidões, para onde vão?
Para onde
vão? Em rebanho a grunhir
Que monte
Que abismo
Os espera?
Eu sei
(agora) quando tudo é tardio
Que há quem
gostaria de amordaçar os filhos
Nesse
subsolo dos monstros de debaixo do jardim
E evitar a
todo custo que saibam
Que sequer
pressintam
Que lá em
cima, depois das rochas e do barro,
Há toda uma
vida
Livre e bela
Dos que,
fora da caverna, são reais.
Eu sei
(agora) mas não queria
Que se
vivesse trinta anos antes
Na própria
ceia de natal poderia
Ser
denunciado por três ou quatro tios distantes
Sob os olhos
testemunhas do peru
E seria mandado
para um subsolo
Porão dos
monstros, nove passos acima do inferno
Sem
Virgílio, sem mistério
Deixado às
mãos de agentes fardados
Sem olhos e
sem boca sob seus rostos fardados
Sem alma e
sem coração sob seus peitos fardados
Eu poderia
ser amarrado
A um pau de
arara
E só o
Senhor sabe como seria subjugado
Pelo cu, ó
Deus, pelo cu,
Por um país
melhor
Governado
pelos monstros do subsolo.
E minha mãe
ia rezar à noite
Pela minha
salvação
E meu pai ia
queimar papel higiênico no quintal
Como sempre
fez às quintas-feiras
Nos
acostumando desde cedo ao cheiro de merda queimada
Por entre as
madressilvas
Eu sei
(agora) quando temo seja tarde
Que nesses
tempos secos nossa força possa esvanecer
Feito planta
que se despe no verão agreste
Sem contudo
ceder ante a terra e a morte
Nada arranca
a seiva do seu couro forte
E que em nós
também, grande e viva, ainda resiste
Eu sei
(agora) mais que nunca
Dessa força
bruta que nos mantém, dia após dia, na luta
O fato de
termos conosco, debaixo do braço, toda a verdade
Que todos os
monstros parecem ter esquecido
Do nosso
lado há o dito
Esse breve ato de conjugar o susto
Como quem conjuga um verbo irregular
E defectivo
E que nos
finca com toda força
E que nos
brilha com toda rima
Nos jardins
mais verdes do nosso direito de ser livres
Como uma
semente que apesar de pequena
Nascida
nesse subsolo da ignorância
Ainda
preserva em si toda a gana de se tornar
Um majestoso
pé de laranja-lima
Que topeira
nenhuma pode dar fim.
Com amor e medo,
Jedielson Sant'Ana

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