Chove



CHOVE



Estalam pelo céu elétrico no lombo de alguma onda de rádio
Vozes que correm invisíveis pelas áreas virtuais
Com suas trombetas essas línguas feitas de dados
A profetizar o novo mundo enquanto escorrem bueiros abaixo
Indistintos, promessas e gritos e outdoors implicitos, ofensas e pequenos aforismos
Frases prontas que não servem para nada além de um suave sorriso
Anestesiar seja lá qual for o nome desse nó agudo que permeia o mundo
Rios inteiros de palavras acentos imagens e vídeos jorrando pelos meio-fios das ruas
As duas mil notícias indispensáveis do dia papel velho amolecido pela chuva
Sugados impiedosamente em bocas de lobo e lodo é tudo
Que se desfaz enquanto ao lado moças bonitas marcham com seus blushes
E pós e batons vermelho-fogo se desmanchando sob a primeira luz do dia
Sapatos finos na mão suor perfume no fundo da garganta o grito
Eternizado de não foi hoje não foi hoje não foi dessa vez
Que o amor bateu na porta
E sorriem porque o fogo do batom e do desejo não pode apagar
Enquanto tudo por entre os lábios parece dúbio entre doce e intragável,
Constantemente os dias soam ser a reta final de alguma coisa que não acaba, não enquanto chove,
E sempre chove dessa lama
Que nos afoga diante de intermináveis timelines obrigatoriamente vistas
E marcadas e curtidas mesmo quando o sol convida e chove
Chove pelo menos o suficiente para fazer repensar os planos do dia
Bitucas moídas repousam imersas em poças de cerveja câmaras públicas
Onde homens ainda se vestem com os mesmos ternos dos anos 30
Repetindo eles também que não foi hoje não foi dessa vez
Que conseguimos mudar o mundo
Nem na porta dos enfurecidos rapazes que levantam continentes inteiros
E abaixam e respiram e levantam outra vez e descansam e prosseguem
Em castigo helênico para virar uma foto bonita
Que se printa e se apaga à passar o tempo no ponto de ônibus sem internet a espera
Do que não vem. Por que não vem? Por que demora?
O silêncio trovejante e metralhado dispensado direto na veia sempre incomoda.
E chove. Afinal, sempre chove, sempre é dia de esperar calado
A hora de poder ir lá fora onde certamente está guardado
O antidoto para o pegajoso tédio de cada dia
No amor? Nos milhares e milhares de amigos?
Nos famosíssimos e simpatississimos anônimos
Que compartilham o dia em pedaços degustáveis de quinze segundos
Quarenta e sete mil duzentos e oitenta e duas pessoas estão falando sobre isso
Estão sozinhas diante do celular
Falando sobre isso
Estão sonhando com a hora em que esse sentimento de fim de festa vai acabar
E vão poder dormir outra vez e depois levantar e seguir, agora sim,
Suas vidas, sem novas mensagens sem novas solicitações sem novos gifs
Nem notificações nem os incêndios urgentíssimos que precisam ser apagados por uma manifestação coletiva
Na internet
Enquanto falam sobre isso
E depois sobre aquilo
E depois sobre aquilo outro
Eternamente famintos por um ponto final seja no Cristo que diz que vem,
Um dia vem, seja na guerra ou na arma sob a calça social passada e engomada
Com listrinhas brancas que são a novidade da estação e vão
E vão em vão recomeçar a metódica rotina do f cinco
Do f cinco do f cinco do f cinco do f cinco do f cinco do f cinco do f cinco do f cinco
Enquanto para sempre
Chove lá fora.



 ***
Com amor e medo,
Jedielson Sant'Ana



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