Cem Dias de Solidão




Hoje eu serei todo estética. Hoje eu pago pro florista, mas não quero saber de espinhos. Nesse dia de transbordamento e exaustão, me esquivo da realidade palpável das coisas. Sou desvio dessa realidade suja, sou curva desse mundo que já não faz sentido, se desloca a cada dia, se mutila, e eu sei, sinto no mais dentro do meu corpo que se quiser me manter ancorado em mim, se quiser continuar sendo exatamente assim, intactos sejam lá quais forem meus valores, é preciso desviar. É preciso, apesar de tudo e tudo e tudo, pensar no pouco que ainda é belo. Fantasiar antídotos, confabular. Deixa que amanhã recomeço a carregar o atlântico peso nas costas dos dias de loucos. Deixa os noticiários mancos, hoje eu quero ver anjos. E na verdade me desculpa se para ser belo eu precise ser difícil, me desculpa se a cabeça desse texto tá faltando, e os pés deixei nos sapatos mais cedo, mas eu preciso de um respiro. Mais que tudo eu preciso, leitor, e certamente você também, de um tempo. Hoje carregarei de tintas fortes o céu mais amplo do quadro que nunca pintei, mas gostaria. O quadro será sempre exato, surrealista é a vida. Meus sonetos vão ser sobre amor à primeira vista. Hoje eu quero pensar na psicologia intrínseca da solidão humana, não no desemprego, não na dívida. Hoje eu só quero achar uma rima. De todas as maneiras me cercarei de um monte de gente honesta e doce e que no peito ainda guarde aquele sentimento antigo, empatia, deixando de lado as vozes rudes como flechas de creolina que - de um dia para o outro - nos perfuram. Nos enganam. Nos humilham. Nos repartem, em dois, em vários. Quero ver além do muro. Quero ver além do muro. Quero ver além do muro. Me desculpe se nesse texto, que era para ser todo estético, todo belo, eu pareço triste e sufocado, é porque não consigo mentir quando escrevo, é porque já faz cem dias que eu sinto como se as paredes invisíveis de concreto e ódio me comprimissem, e, no geral, sobrevivo, eu fico bem, mas tem dias que… e é só isso, no Brasil de hoje, tem dias que… A frase morre mas qualquer um que a ouve sabe. Está dentro da gente esse tal “tem dias”, como um pino de platina que às vezes dói quando troveja. Já chorei um pouco, agora estou em vida. Hoje vou para praia, o sol ainda brilha, por sobre o muro.



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Com amor e medo,
Jedielson Sant'Ana


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