Reflexões de um domingo só


REFLEXÕES DE UM DOMINGO SÓ






Eu costumo pensar que em nossa essência, lá no mais íntimo, nós somos iguais, que a literatura em geral serve para nos mostrar o quanto as pessoas em qualquer vilarejo russo ou japonês têm os mesmos anseios que uma pessoa da grande São Paulo ou de San Francisco.


Mas e se fosse o oposto? E se nós formos tão diferentes aqui na minha cidade do Paraná, Brasil, das pessoas que vivem na Venezuela ou em Londres ou em uma cidade de tamanho médio ao sul do Sudão, que as coisas que nos interessam na literatura produzida nesses tais recônditos, forem justamente a diferença e não a similaridade. E se o fascínio da literatura seja ver como essas pessoas, tendo sido criadas em outro ambiente, com outras crenças e padrões de relacionamento, encaram a vida de maneira diferente da minha.


Claro, no fim pode parecer só uma questão semântica: pessoas são iguais mas vivem em locais que proporcionam situações diferentes x pessoas são diferentes mas vivem conflitos iguais.


Porém, pense na situação hipotética de nós sermos tão diferentes em nossa essência que, caso não vivêssemos em sociedades relativamente parecidas umas das outras, mal conseguiríamos nos compreender. Haveria alguns de nós que se limitariam a caçar, outros que pensariam na imensidão do céu noturno, alguns criariam religiões, outros se embrenhariam na mata para não voltar. Nesse cenário, seria possível viver?


A resposta é não. A gente não nasceu para ser solitário, a gente se agrupa, a gente precisa dos outros, e talvez por isso mesmo desde o instante em que duas pessoas se conhecem elas passam a absorver um pouco da cultura uma da outra, porque a gente precisa ser mais parecido com quem nós queremos por perto. Até os animais se aproximam dos seus semelhantes e criam matilhas, cardumes, bandos.


Um cenário em que somos fundamentalmente diferentes é bastante assustador, porque a partir do momento em que eu não consigo prever as reações de outra pessoa baseado nas reações que eu teria na mesma situação, como eu conseguiria confiar nessa pessoa? Assim, a gente busca pessoas com histórias de vida parecidas com as nossas, porque isso faz delas pessoas que se moldaram de uma forma mais ou menos como a forma que nós nos moldamos e agem de um jeito que a gente agiria, e isso nos deixa mais confortáveis. A gente tem medo da diferença, não confia na diferença, no imprevisível, e se tivermos como escolher entre duas pessoas, sempre escolheremos a mais parecida com a gente, amigo leitor.


E isso é horrível, porque quem é diferente não é pior nem melhor que eu, só foi criado num outro contexto, nunca se esqueça disso. E mesmo que isso que estou descrevendo seja apenas uma extrapolação, uma parábola só para nos fazer refletir, e que obviamente todos somos mais parecidos do que diferentes, o que me faz pensar tanto sobre isso é o fato de às vezes sermos incentivados a notar as diferenças entre nós, e não as nossas semelhanças.


O que está causando isso? Eu não sei. É possível que seja só coisa da minha cabeça, talvez todas as relações humanas da história sempre tenham sido assim, mas isso não muda o fato de que me inquieta.


Eu não sei o porquê, e tem tanta coisa que eu não sei, o pouco que eu sei também é algo muito sensorial, não saberia explicar. Tudo nesse texto, como também nos outros textos desse blog, parte do princípio que você, leitor, em algum momento da sua vida sentiu a mesma coisa que eu, se isso não é verdade eu teria que explicar as coisas de um modo muito mais detalhado e eu não consigo fazer isso. Na verdade, esse texto surge de um aperto no peito.


Porque se realmente for verdade o que dizem, que a era digital nos interligou a todos e permite que eu tenha amigos muito muito muito parecidos comigo, mas que vivem na Geórgia, o que me faria ter que enfrentar todos os percalços de tentar criar laços com alguém que nem é tão parecido comigo, mas que vive aqui na minha rua? Percebe quais são os problemas em focar nas diferenças em vez das similaridades? Ao mesmo tempo que ela nos interliga, nos separa. Para cada 1 pessoa que leu 99 livros em comum comigo, existem milhares que nunca leram um livro, e nas redes sociais de qual dos dois grupos você acha que eu vou me aproximar?


Diferenças sempre há. Somos sete bilhões de pessoas. A diferença deveria ser superada. Deveríamos estar nos interligando mais, aceitando melhor o outro, e não nos isolando nas nossas tribos de pessoas profundamente iguais a nós.


Se existe uma pessoa muito muito muito parecida comigo lá na Geórgia, eu paro de enxergar as pessoas ao meu redor, que são menos parecidas mas com certeza tem alguma coisinha em comum, como possíveis amigos, eu vejo como diferentes, como imprevisíveis e não vou querer ser amigo delas, pelo contrário, vou falar em inglês por direct com meu new friend americano.


E assim há sempre um abismo. Há um abismo entre minha cidade e a Geórgia, há um abismo entre as pessoas fisicamente próximas de mim e eu. Cada vez mais nos sentimos solitários. Afinal, se as pessoas são mais diferentes que iguais, só posso confiar em mim mesmo, só posso ser eu mesmo comigo mesmo.


Eu sinto que aos poucos aquela ilustração assustadora do começo está deixando de ser ilustração e se tornando realidade, as pessoas estão realmente pensando que são essencialmente diferentes umas das outras, que não é uma questão de terem sido criadas de maneiras diferentes, mas sim que são realmente diferentes, por dentro. Como se fossem espécies diferentes de seres humanos.


Parece radical para você? Dá uma passada no Twitter num dia de fúria.


E se as pessoas não se veem mais como iguais, perde-se aquele sentimento de empatia. Isso já está acontecendo, a empatia já é desvalorizada quando convém a algum grupo dominante. Não é conveniente que um cidadão americano sinta empatia por um cidadão mexicano. Não é conveniente para um pai cristão que seus filhos busquem imaginar o que sofre uma transexual.


Estamos nos isolando em grupos cada vez menores de pessoas que são exageradamente parecidas com a gente e desprezando os diferentes que antes seriam nossos amigos.


Nesse sentido as redes sociais são uma anti-literatura, anti-arte. Se a arte é o que nos humaniza, nos aproximando do próximo, a rede social nos isola, nos artificializa, nos tornando menos sociais e mais individuais.


Esse muro que nos encerra em nosso mundinho, do qual restam cada vez menos frestas. Lute contra ele, amigo leitor. Quando for um daqueles domingos cinzas e você se sentir sozinho, não vá para uma rede social conversar com seu amigo na Geórgia, vá na casa de alguém, toma um café com Club Social, vai dar umas risadas.


Eu sei que é difícil, amigo. Eu sei que cada like é tentador. Mas nunca se esqueça que se eu sinto isso a ponto de estar escrevendo, e você também sente isso aí na sua casa, é certo que muito mais gente, talvez milhares, talvez milhões de pessoas sintam a mesma coisa. Afinal, somos todos essencialmente iguais.


Juntos, a gente ainda quebra esse muro.





Com amor e medo,

Jedielson Sant’Ana

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