Poemas que não cabem no Facebook n2 - Considerações quanto ao Medo e a Morte
Não
nos levantamos mais
Contra
ditaduras contra injustiças
Estamos
cansados
E
de tão cansados geramos filhos cansados
Produzimos
poemas cansados
E
quando tento contra tudo reagir o medo sopra e me aquieta
Com
seu suave sussurro me diz: sossega
Um
dia a morte vem e te carrega
Sem
aviso prévio
Sem
uma ponta no noticiário
Então
eu me calo
Como
se a morte nos reduzisse a relógios marcados
De
que vale a escalada se o final será sempre a sete palmos?, eu pensava
E
o medo vinha com seu manto de cansaço
Porque
eu sei que independente dos possíveis mil atos de heroísmo
Eu
morro e o comércio prossegue aberto
Alimentado
pelas mãos do medo
Não
propriamente da morte, esse segundo de dor ou desatino,
Como
um estalo, que nos confronta com o divino,
Mas
medo de ficar de fora do business milionário
Desse
planeta 30% terra 70% dólar.
Eu
vivo sou agente de negócios,
Se
eu morro viro sobra.
E
isso me confronta com a insignificância de tudo de mim que não é alma.
Eu
morro, mas eu não sou Jesus Cristo
E
pássaro nenhum se cala com a minha partida
Nem
lições são aprendidas, novas crenças, segundas vindas.
E
nem sequer uma grama de matéria parte comigo
Deixando
claro que eu, eu mesmo,
Esse
que não estará mais aqui no dia que eu partir
Ao
contrário dos meus ossos e minhas tripas e afins
É
só palavras, memórias, poemas.
Somos
todos verbos, energia elétrica que move braços e pernas
E
ergue prédios.
Por
isso o medo, saber que minha morte
Apesar
de todo o drama e a ruína
Em
termos físicos, significa só comida para novos fungos
E
colônias inteiras de pequenas vidas.
Eu
morro, mas a valsa dos vivos continua
No
mesmo compasso veloz de todo dia.
E
se por um acaso morte já não houvesse
Não
sei se do medo ainda assim me libertaria
Dessa
silenciosa voragem
Que
me impede de explodir em mim mesmo
E
realizar as mais furiosas fantasias.
Antes
me contendo nessa casa sobriamente mobiliada,
Mais
ou menos grande, confortavelmente silenciosa.
Como
uma lápide, só mais espaçosa.
E
assim percebo que o medo da morte
Já
é ele próprio um pedaço da morte
A
nos acompanhar dia após dia,
Que
por não fazer o que eu gostaria
Temendo
seja lá que acidente disso acarretaria
Eu
deixo menos de mim no mundo,
Como
um belo verbo que não conjugo
E
facilmente cai na morte do esquecimento.
E,
portanto, claramente, é preciso resistir.
Não
de corpo todo, bem verdade, esse amontoado de células
Que
como eu já disse, eventualmente, apodrecem,
Mas
sim, eu sei que um pedaço de mim sempre fica
Eternizado
no poema
E
tenho comigo o dito
Esse
breve ato de conjugar o susto
Como
quem conjuga um verbo irregular
E
defectivo
E
que me finca com toda força
E
que me brilha com toda rima
Mais
que em um livro, numa outra vida
Que
me lê e ao me guardar, me permite que viva consigo
E
essas palavras, que definitivamente sou eu estado escrito,
Nem
a morte é forte o bastante para apagar
E,
portanto, medo algum vai barrar o verso
E
é como se para cada nova rima ou sentença como essa
No
cajado seco da morte
Com
a semente do poema, uma sempreviva florescesse.
***
Com amor e medo,
Jedielson Sant'Ana

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