POEMAS QUE NÃO CABEM NO FACEBOOK n1
Tempo do pós-tempo
Arrependei-vos, cessem os esforços e me sigam, gritavam, desesperados,
os homens que se alimentam do medo. O mundo é um término
cínico e inexorável, e nada importa mais, garoto,
sob esse céu constelado de satélites, a história já passou.
Mas eu me nego.
Antes desses nossos dias o mundo já tivera ditadores
já sofrera dores já matara por amor a Deus
ou a bandeira, ou ao dinheiro ou ao mero sabor de matar,
mas de modo sincero, não como hoje o fazem, a dissimular.
Caminho por entre as vozes, navego os turbulentos mares de ódio.
Palavras se misturam num zumbido baforento, ecos,
falam de máquinas que repetem os homens e são mais ouvidas
que os homens.
Falam de armas que só existem enquanto gestos, e ferem, e matam.
E ai de quem protesta contra o violento maquinar de mentes.
Toda lágrima é um plágio.
Ainda assim o que nos resta a não ser a busca mais lunática
por qualquer resquício de lucidez?
O que nos resta a não ser lutar até o último instante, kamikazes
deslizantes
na batalha mais perdida, dissimulando nós mesmos,
para ver nascer a estupidez na manchete do dia
O sol se punha sob os rostos encobertos, é noite
Não obstante, frente às luzes da cidade, certos garotos percebem
Que ainda tem muito fogo e música no mundo
E erguem os olhos mais alto que os aparelhos e os prédios
E caminham contra o tráfego, despertam.
Hoje o oceano é recuo, mas ele volta,
Com toda força, um dia ele volta
E rebenta.
***
Com amor e medo,
Jedielson Sant'Ana

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