No coração e nas nuvens


NO CORAÇÃO E NAS NUVENS







No coração.


Ultimamente tenho criado um hábito que eu quero, e torço, manter pelo resto da vida: de tempos em tempos, geralmente num fim de semana ou num feriado, separo o dia inteiro para me encher de arte. Eu não sei se você já tentou isso alguma vez, separar um dia para assistir a um filme (daqueles que você sabe que nos tempos corridos nunca teria paciência para ver, ou de Tarkovski, ou Bergman, ou outro desses nomes grandes com filmes duros e trilha sonora dos rangeres da casa), ouvir música, terminar de ler aquele romance esquecido na prateleira, procurar biografias e quadros de grandes pintores, tudo isso sem intervalos para um reality show da tevê. Sem anestesia. Arte na carne viva.


Não que eu ache que todo mundo devia aprender sobre essas coisas, veja, não estou dizendo para você conhecer essas coisas somente para poder dizer que conhece, pelo contrário, são nomes que a gente guarda por dentro da gente, não fica recomendando para os outros e é até gostoso de manter assim, um filme só meu, um livro que eu amo e sei que ninguém que eu conheço vai amar porque sinceramente nem eu sei porque eu amo, clássicos na sua marcha gradual que nos arremessam nos seus vilarejos nevados, sem a intenção de soar arrogante, sabe?


Na verdade, o que eu busco nesses dias não é conhecer o máximo de cultura possível, bancar o intelectual, sai pra lá. O que eu busco é um sentimento muito especifico. Algo dentro de mim, algo que talvez você já tenha sentido alguma vez também. Eu não sei explicar muito bem, não sei há uma palavra especifica, mas é como um transbordamento de alguma coisa dentro da gente.


É como se toda a arte assim, na veia, sem represa, sem freio, mudasse o meu olhar naquele momento, e de repente faz todo sentido aquele enquadramento de Godard, seguido de um silêncio que soa doce. De repente a palavra usada por Mia Couto parece ter sido inventada (sei lá há quantos séculos uma palavra foi inventada) somente para caber naquele conto, e não o contrário. Subitamente, como um suspiro, sinto que talvez a cor azul só exista no universo para virar tinta e pintar um céu de Van Gogh. E aí a gente lembra que a tinta amarelo-vivo que é a estrela do quadro é feita de sabe-se lá que elemento químico que seguramente surgiu a partir de uma explosão cósmica numa estrela de verdade em algum lugar da vastidão interestelar. SOMENTEPARAVOLTARAOSEUESTADODEESTRELA. Num quadro de Van Gogh.


Talvez a palavra seja êxtase, mas sem a sugestão de algo elétrico, eufórico, não, é calmo. É ao mesmo tempo um sobressalto e uma ação corriqueira. Talvez a palavra seja “deslumbramento”, mas também não exatamente com essa ênfase na surpresa, na grandiosidade, é algo que emana das mínimas coisas, que te põe diante da beleza de um farfalhar das folhas de um sobreiro. Talvez seja epifania, mas sem aquela conotação ao divino.


Não, é outra coisa. É abstrato, mas ao mesmo tempo eu sei exatamente o momento em que acontece, nesta última quarta-feira de cinzas eu tive um dia desses momentos e quase pude cronometrar a hora, o instante em que a arte transbordou e eu lia um poema de Drummond, era aquele poema Indicações, sabe? E o poema se abriu, e cada palavra, cada fonema desse tal idioma chamado português tomou outras proporções, virou outra coisa. E aí passou. A releitura já não trazia nem a sombra daquele sentimento.


E é exatamente esse tipo de sentimento que eu busco constantemente reproduzir quando escrevo, mas como reproduzir algo que você sente mas não sabe nomear? Como, se as coisas só existem enquanto palavras? Porque eu senti, estava no meu corpo, fisicamente na forma de, sei lá, alguma endorfina, devia estar literalmente sendo bombeado pelo meu coração, diluído no sangue quimicamente mesmo, fisiologicamente falando. Mas ao mesmo tempo é algo que não existe. Esse tipo de coisa não existe, certo?


E depois disso eu fiquei pensando nas palavras. Jogue uma palavra aqui, preamar por exemplo. E considere que por algum motivo você não sabe o significado dessa palavra. Preamar passa a existir somente como um som, como uma coisa que existe por ela mesma. Sei que está muito confuso, mas é que eu sinto que é algo tão grande que eu não sei não escrever sobre.


É como se fosse uma música, mas num idioma desconhecido. (Aquela história toda de A Culpa é das Estrelas, filme pipoca que agora pouco eu falei que não gera o que estou tentando trazer, mas contradições existem, aceite), o som das palavras existe sozinho se você não sabe aquele idioma; e podem ser bonitas, as palavras sozinhas.


Agora inverta isso.


Pense nas coisas, mas só as coisas, sem as palavras que lhe dão nome. Como esse sentimento do qual estou tentando descrever desde o começo, algo que existe, que eu não sei nomear, mas está lá. Me parece mais puro, nesse estado de “não ser batizado”, me parece que esse sentimento existe de maneira individual, só em mim, e é selvagem e intraduzível, e a partir do momento em que eu tento trazer uma definição para ele, acabo o diminuindo, e deixa de ser ele mesmo.


Então eu não tento dar um nome. Então eu escrevo sobre coisas que não tem nome. Então é disso que se trata, acho que essa é a busca que ultimamente mais me tem inquietado. Trazer o que eu sinto sem rotular como se espera que aquilo seja rotulado, descobrir novas formas, novos nomes, ou simplesmente não dar nome. Por no concreto desse texto escrito o que literalmente está sendo bombeado em quantidades infinitesimais pelas artérias do corpo.





Nas Nuvens.


E que ao mesmo tempo é ilusão. É nuvem. Sabe, a gente não foge das palavras, a gente não grunhe sobre as coisas, a gente diz, e se a gente faz um gemido esse gemido pode ser descrito em palavras e vira um rótulo.


Parece frustrante ter que limitar a coisa à palavra. Mas na verdade agora sinto que não é. Essa é a mágica da arte.


Essa é a mágica do poema do Drummond, dos filmes com seus silêncios doces. Eles guardaram de alguma maneira aquela “coisa que não tem nome” ali, nas suas obras, e eu, na minha própria busca pessoal de repente toquei aquilo, abri aquele embrulho e se repetiu em mim o subjetivo por trás do objetivo daquelas palavras, daquela composição de cena.


É literalmente como estar nas nuvens. Ninguém está propriamente nas nuvens.


Quando a gente vê aquela espuma branca cobrindo a serra ela existe na nossa visão. Ela Existe, por isso lhe damos um nome: nuvem. Você pode descrever como um algodão, como uma massa, como um tecido. Mas quando você sobe aquela serra, a nuvem é só chuva, é água, incolor, intocável, praticamente sem massa, e você pode também descrever aquilo, com palavras como uma umidade, como um vento gelado, como umas gotículas no vidro do carro.


A nuvem existe como imagem e existe como matéria, são coisas diferentes e ao mesmo tempo a mesma coisa.


O céu existe como matéria, e como quadro de Van Gogh.


Aquilo que eu sinto existe como “algo que eu não sei nomear”, mas também como algo que eu acabei de nomear no tópico anterior, mesmo sem usar uma palavra especifica, está ali o sentimento. Talvez se você ler esse texto, se você fizer aquele ritual de passar um dia inteiro apreciando arte, consiga identificar o sentimento, porque eu lhe dei um nome, mesmo sem dar.


Então sim, existe um motivo para essas imagens de nuvens no meu blog (e eu juro que quando escrevi os primeiros posts não fazia ideia disso), é que o que eu quero escrever está em torno do que o que eu estou escrevendo, porque o que estou sentindo não é exatamente o que eu estou dizendo, mas é quase.


Eu espero alcançar esse nível, eu espero conseguir realmente conciliar essas duas coisas, o que eu sinto e o que eu escrevo, e acredito que isso é o ponto-chave do que me faz escrever, mais até do que ter livro publicado, que ser vendido na Livraria da Cultura, do que ser premiado, do que ser reconhecido, do que ter o extenso romance que traduz pomposamente as desilusões da minha geração, o que eu preciso alcançar é o instante em que eu conseguir tocar uma nuvem, e ela não ser água, ser algodão.






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A tempo: Preamar significa: o momento em que a maré está cheia, apesar de antes de eu saber disso sempre achar que era uma definição para aquele instante entre o ver alguém e o amar esse alguém. Na verdade, eu ainda acho que significa isso, mas os dicionários guardam o segredo às sete chaves.





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Com amor e medo,

Jedielson Sant’Ana




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