E SE UM NOVO DAVID
APARECESSE BOWIE NO SEU PRÉDIO
Você já se sentiu um estranho no mundo? Parece uma pergunta
besta, óbvio que todo mundo deve ter se sentido pelo menos uma vez o mais
incompreendido da face da terra. Todo mundo tem um pouco de K, aquele
personagem famoso do Kafka, que também era em vários sentidos um estranho no
mundo. Ei, não desista da leitura, eu vou me segurar nas citações.
Vá lá, talvez eu esteja generalizando, é possível que nesse
mundo enorme existam, aos milhares, aliás, aquelas pessoas que já nascem com a
fantástica habilidade de se adaptar. As pessoas que conseguem, somente com seu
carisma solar e gentil, um trabalho maravilhoso que consiste na degustação de
salmão e pizza doce, que nunca brigaram com um patrão, que nunca ficaram presos
em alguma matéria da faculdade, que no ensino médio eram deuses, no
fundamental, anjos. Embora eu não conheça ninguém assim, imagino que nessas
cidades maiores que a minha, nesses bairros nobres e simetricamente arborizados
pessoas assim nasçam como amoras no verão.
Não me importa. O que eu particularmente gosto é da
diferença. Eu me identifico com esses nichos. Com os deslocados que, sendo
notados ou não, são a maioria no mundo. Eu por exemplo faço o estilo nerd, o
que é relativamente bem aceito, mas não entendo de games, o que já faz de mim
um pouco diferente do que se espera. O fato de eu ser gay ajuda na
diferenciação, e por aí vai.
Então eu lia sobre pessoas com as quais me identificava. Os
nerds gays dos livros de história. Não há muitos. Mas há muitos outsiders por
aí. O já citado Kafka, o maravilhoso Oscar Wilde, o tenebroso Edgar Allan Poe,
entre os escritores são vários. E o que sempre me impressionou foi como essas
pessoas tiveram vidas catastróficas. Quando lemos essas biografias, parece que
o passado era de uma ignorância arrasadora. Oscar Wilde era gay, e daí? Vamos
deixa-lo levar sua vida normalmente? Nããããããão, claro que não, vamos
estigmatizá-lo pelo resto da vida. O que, Galileu afirma que a terra gira ao
redor do sol? Persigam o monstro herege.
Sob o prisma da história toda diferença sempre foi
perseguida.
E eu costumava pensar: “nossa que bom que eu nasci numa
época mais tolerante”. Ainda bem que no presente as coisas não são mais assim. Até
alguns anos atrás isso me enchia de uma esperança em, sei lá, uma nova
Renascença humana que prenunciava um futuro muito mais promissor.
Mas isso foi há um tempo atrás. Hoje eu tenho minhas
dúvidas. E essa mudança de perspectiva aconteceu quando me veio na mente uma
imagem, que eu queria trazer para você, leitor: E se seu filho, seu irmão menor
ou talvez o seu vizinho de prédio aparecesse no saguão do condomínio com um
raio vermelho pintado no rosto, o que você faria?
Não, eu não vou falar de música, nem do pop, muito menos
quero questionar alguém sobre a possibilidade da reencarnação. Na verdade,
queria só enumerar algumas considerações sobre costumes. E sim, sobre esses
costumes que as pessoas não gostam de falar.
Sobre intolerância, para sermos mais precisos.
Como eu ia dizendo, de uns anos para cá o mundo parecia vir
num processo de aceitação das minorias que surpreendia a todos. Tudo bem,
talvez não o "mundo", mas o Brasil certamente. Um ministério da
igualdade racial e pesquisas do Ibope mostrando uma maioria a favor das cotas
raciais; uma compreensão das causas do feminismo e a diminuição gradativa da
desigualdade com a mulher no mercado de trabalho; lutas pela liberdade sexual
deixaram de ser lutas e se tornaram paradas, desfiles. E o mundo não virava
nenhuma Sodoma em chamas como se dizia antigamente. Há dez, cinco anos, você
ouvia alguém dizer que era contra essas questões? Você ouvia alguém falar mal
do Greenpeace?
E no meio disso tudo eu pensava em David Bowie. Meio bobo da
minha parte, eu sei, mas sempre tive essa mania de lembrar de pessoas do
passado e imaginar o que eles pensariam sobre o que acontecia no presente. O
que Machado de Assis acharia da adaptação feita por Luis Fernando Carvalho do
seu livro mais famoso; o que Clarice pensaria se soubesse que ainda hoje os
jovens amam Macabeia com o mesmo fervor tremelicante de Rodrigo S.M., e Caio F
com seu Zero Grau de Libra, e Augusto dos Anjos com seus poemas pirados, e
Cazuza e Hilda Hilst e Murilo Rubião se divertindo com a nossa incompreensão,
mas principalmente Bowie.
O cara que estava tão preocupado com a opinião dos
conservadores quanto meu teclado está preocupado com as palavras que eu nele
digito. Afinado, escatológico, harmônico e ostensivo. Uma estrela, de fato.
Mais brilhante que qualquer sinal vermelho contra si. Mais ilustre que todas as
tentativas de repressão que timidamente tentaram lhe ofuscar.
E olha que com seu jeito andrógino ele vendeu milhões de
discos numa época complicada, países ainda em ditaduras repressoras. Bowie
conseguia causar repúdio tanto de cubanos conservadores e quanto de generais tupiniquins
sentados em cadeiras de Brasília. Mas o público o aplaudia, o público o amava,
os posters decoravam milhares, milhões de quartos de outsiders pelo mundo. Que
se reconheciam no diferente de Bowie, se identificavam com o ET estranhando
os estranhos costumes do planeta Terra.
E hoje? Se ele surgisse hoje eu me pergunto. Ainda haveria
espaço para uma estrela como a de Bowie brilhar? Ouvintes de suas músicas
certamente existiriam, mas seriam os mesmos outsiders da geração passada. Bowie
talvez incomodasse os programas de tv acorrentados a classificações
indicativas. Irritaria eleitores de Trump, e sua música outra vez se misturaria
a um teor politico como quase sempre acontece com obras de artistas
referenciais. Mas teria espaço numa casa de classe média brasileira para um
menino que amava On The Road e queria ser cantor e performer com direito a
declaração de bissexualidade e um quase beijo em Mick Jagger? Teria direito a
sentar no sofá da Fátima Bernardes? Teria o frisson e seria aceito pelos
conservadores cada vez mais violentos com suas declarações corrosivas?
Eu já ouvi todo tipo de piada humilhante sobre a Pablo
Vittar. Eu já vi meu irmão xingar um jornal que mencionava a morte de Mariele
Franco. Eu já vi torturador ter admiradores.
Tudo bem que Bowie outra vez não daria ouvidos para essas
pessoas, conservadores sempre existiram, em monastérios na Idade Média, em
Senados da Roma Antiga. Mas ainda assim é interessante para nós, que não somos
Bowie, notarmos o quanto em nada evoluímos, ou se evoluímos, parece que
recentemente essa evolução tem se perdido em meio a discursos de ódio e racismo
e umas mentes brilhantes que ainda acham que estupro é culpa da vítima.
O câncer mata como nunca, mas ainda tem gente que luta pela proibição de maconha. O mundo
está derretendo e tem gente indo em plenários para pedir que as escolas ensinem
o início primordial da maçã e da serpente.
Sabe, não estou nem falando sobre direita e esquerda aqui.
Nem tudo tem que resvalar nessa guerra fria, e digital. Estou falando de
pessoas, dos meninos e meninas, artistas, engenheiros, designers, publicitários
e tudo o mais, que mesmo que tenham carreiras das mais bem-sucedidas ainda tem
que encarar como ressalva, o fato de serem exatamente o que elas são. Se você
pensar em quantos judeus morreram por ser judeus, em quantos gays morreram por
ser gays, mulheres, por ser mulheres, o cemitério está cheio de réus confessos
desse crime de ser você mesmo.
Depois de tantos anos de artistas lutando pela liberdade e
diversidade, aparentemente ainda hoje existe um pelotão de gente querendo um
mundo cada vez mais uniformizado, todo certinho e sem opiniões divergentes.
Apesar de todas as lições que a história da humanidade nos
deu, a verdade é que se alguém com o talento imprescindível de David Bowie
aparecer no prédio no dia de hoje, mesmo com sua alma de artista, mesmo com
suas músicas de pura melodia, mesmo com sua inegável relevância para a
identidade cultural da segunda metade do século XX - mesmo assim grande parte
dos moradores não vão quere-lo por perto. Ainda vão achar que ele é apenas uma
má influência para nossos adolescentes facilmente impressionáveis. Vão fazer
reuniões de condomínio sobre o jovem David e seu jeito extravagante, vão
proibi-lo de tocar na garagem e talvez até o aconselhassem a tirar a maquiagem,
se não as pessoas iam comentar.
O fato é que mesmo hoje, StarMan, você não seria bem-vindo pela maioria das pessoas desse nosso planetinha fechado ainda tão difícil de compreender.
Com amor e medo,
Jedielson Sant'Ana

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