Sobre o que se perde e o que nos resta.
Pra não dizer que não falei de mim: sou vendedor. Não que alguém pensasse que eu era escritor profissional. Passo os dias lidando com todo tipo de gente, dos mais humildes, aos que carregam um deus nos brincos.
Tenho vinte e um anos, então você pode imaginar que não possuo uma vasta carreira no ramo das transações comerciais de vendas. E mesmo assim uma coisa sempre me instigou enquanto passo os dias atendendo aos homens e mulheres que passam pelo meu local de trabalho: a quantidade de coisas que vejo só de vislumbre, as pessoas que só piscam por mim como eu pisco pelos vendedores quando vou comprar algo para mim mesmo, alguém atrás de um balcão, como se fizesse parte da mobília da loja, e que no entanto, pode ouvir as suas histórias.
Deve ser como ir num terapeuta, não sei. Anotação mental: pesquisar quanto custa um terapeuta.
E são muitas histórias as que ouço contadas apressadamente e quase sempre incompletas (porque ninguém vai compor a Ilíada enquanto escolhe o que comprar, certo?). E de toda essa infinidade de histórias existe ainda uma infinidade de versões, as quais elas não contam e que podem retratar os meus narradores como vilões ou mentirosos, e ainda toda uma outra infinidade de histórias que não são contadas pelos que preferem o silêncio cordial.
Algumas eu me lembro, em algumas eu me inspiro quando escrevo. Outras, a grande maioria, eu me esqueço. Se apaga em algum retrato desbotado da parede da memória, igual aquela música da Elis Regina, que dói.
Tanta coisa importante e maravilhosa que já passou por mim, coisas que eu soube, que eu descobri e depois esqueci. Como por exemplo as tragédias gregas, você já leu sobre isso? Todo ano se fazia um concurso de teatro em Atenas. Todo dramaturgo apresentava quatro peças, e eram vários dramaturgos todo ano por aproximadamente um século ou mais. Pelo menos umas 500 peças devem ter sido escritas nesse período, e pelo nível das que nós conhecemos hoje, certamente a humanidade estava num belo momento de criatividade.
Mas o que restou, entre comédias e tragédias deve ser algo em torno de umas 20 peças. Dizem que são as melhores, mas ainda assim, as piores deviam ser fantásticas. Nunca saberemos. Um episódio inteiro da nossa história cultural se perdeu quase completamente, milhares de visões de mundo gregas se perderam com o fim daquele império.
Você percebe quanta coisa se perde nessa vida, nas palavras de Ferreira Gullar.
Você percebe que cada pessoa que ignoramos, não por maldade, mas pelo simples fato de não conhecermos, é uma peça grega, daquelas cheias de drama e de ápices e de reflexão? E, também como as tragédias, uma morte no final.
Eu poderia vir aqui e falar sobre como a humanidade está perdida, como o nazismo vai renascer direto da Alemanha amargurada do pós-guerra, para os facebooks de gente amargurada no pós-fato. Mas eu não vou fazer isso. Eu acho que as pessoas ainda tem aquela euripediana complexidade. Se for para só restar vinte peças do presente para as culturas de daqui a dois mil anos no futuro, eu não quero que sejam todas páginas tristes de extremismo, que sejam retratos de momentos de falta de empatia, uma guinada à boçalidade. Não, no que depender de mim - e pouco depende - as pessoas maravilhosas com quem eu sempre cruzo aqui no meu trabalho de vendedor também vão ser registradas.
Sabe, leitor do futuro, aqui no século XXI têm muito mais que uma política esfarrapada, que noticiários policiais, que picuinhas, que vida digital líquida, gasosa, e inodora. aqui, como eu imagino que aí na sua época também, muitas pessoas são complexas e inteligentes, criativas, simpáticas, felizes e cheias de relatos para contar. A gente até tem teatro ainda, igual aos antigos gregos. eu espero que vocês também, que apesar das toneladas de coisas que vão ficando para trás, algumas sempre perdurem, e que sejam as coisas boas.
Jedielson Sant’Ana.

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