I - Do título
Foi assim que começou o livro do Machado de Assis, aquele livrinho que todo mundo diz que leu, inclusive eu, e você não pode provar o contrário. Você não pode provar que Bentinho era corno, que Capitu era santa. Por isso eu decidi começar assim esse blog que talvez abandone um dia, ou talvez vire um emaranhado de palavras que buscam algum significado.
Decidi começar falando sobre o que sabemos, mas não podemos provar. Eu sei o que está acontecendo no mundo. Esses pólos dividindo as pessoas como naquelas batalhas corpo a corpo da época do sandália e espada.
Esparta is here, inside of me.
Eu sei como vai caminhando a humanidade, e sei que faço parte disso, que me levantando toda manhã, consumindo páginas e mais páginas de redes sociais feitas especificamente para mim, eu faço parte dessa enorme massa sem rosto que arrasta o mundo. Eu sei como caminho e pra onde caminho junto com os demais, só não sei dizer se é um caminho reversível. Se falar sobre isso pode evitar o curso das coisas. Você sabe, leitor? Você tem medo de estar redondamente errado?
O muro já existe, ali no deserto árido entre o México e os Estados Unidos. As coisas já existem antes de serem construídas, uma vez que as coisas são primeiro símbolos. Veja, construímos casas para nós mesmos como forma de abrigo, mas as casas poderiam ter milhões de formatos diferentes e ainda assim cumprir a função de nos abrigar da chuva, do frio, nos dar segurança e conforto. As casas são todas assim como são porque este jeito de construir casas é um símbolo, as casas existem antes de existirem propriamente. Já existem nas palavras. da mesma forma, já germina o muro nos discursos de ódio, na necessidade de se sentir medo do outro, de querer afastá-lo. Já foi dada a base do muro. Já vivemos separados outra vez, como em Berlim.
Berlim is here, inside of me.
E por isso eu entro nesse território do incerto, do paradoxo: as coisas já existem desde que delas falamos, desde que Trump, penteando seu cabelo numa ordinária manhã na sua torre alta que príncipe nenhum jamais tentou escalar, teve a idéia de se candidatar a presidente, de prometer aquele bendido muro. As coisas já existem dentro da gente, inside of us, através das palavras. Mas essas palavras, como as que escrevo aqui, não são fortes o bastante para destruir as coisas que elas constroem.
Uma vez que o muro existe, será preciso muito mais que essas palavras para derrubá-lo. Será preciso o bom e velho estilo Miley Cirus demolindo tudo.
Miley Cirus is here, inside of me.
As palavras constroem. As ações destroem.
O muro de Berlim caiu com marretas. O do México talvez caia também um dia. Não sei, é incerto. O certo é que enquanto isso não acontece, enquanto ele ainda está lá, aqui, em todo lugar, em forma de palavras, de ideias e de tijolos, nos separando a todos, eu, como escritor, ou protótipo de escritor, aquela profissão perdida da qual Machado de Assis fazia parte quando deu aquele título para aquele primeiro capitulo daquele livro que todo mundo diz que leu, tenho a obrigação de tentar construir algo também, de plantar algo através das palavras. Talvez não algo tão universal e de interesse global como um muro nas Américas, talvez só, às vezes, um poema de amor, mas é a minha função. Dizer que essa divisão só nos arrasta para uma teia de solidão cada vez maior, plantar uma semente, em verso, em prosa, em bossa, pra falar de amor.
Porque as palavras estão aqui, dentro de mim, e de você também. A força que faz com que muros se construam, ou pontes, ou foguetes rumo à sétima lua de Saturno não é plutônio, são palavras.
E agora, relendo, essa ideia de tudo que se fez se fez através de palavras é até que meio machadiana, né, não? aquele Bentinho espalhando para todo mundo que Capitu o traiu, escrevendo até livro, safado.
Na falta de título melhor, fica esse mesmo.
Afinal, Bentinho is here, inside of me.
Com amor e medo,
Jedielson Sant' Ana
Foi assim que começou o livro do Machado de Assis, aquele livrinho que todo mundo diz que leu, inclusive eu, e você não pode provar o contrário. Você não pode provar que Bentinho era corno, que Capitu era santa. Por isso eu decidi começar assim esse blog que talvez abandone um dia, ou talvez vire um emaranhado de palavras que buscam algum significado.
Decidi começar falando sobre o que sabemos, mas não podemos provar. Eu sei o que está acontecendo no mundo. Esses pólos dividindo as pessoas como naquelas batalhas corpo a corpo da época do sandália e espada.
Esparta is here, inside of me.
Eu sei como vai caminhando a humanidade, e sei que faço parte disso, que me levantando toda manhã, consumindo páginas e mais páginas de redes sociais feitas especificamente para mim, eu faço parte dessa enorme massa sem rosto que arrasta o mundo. Eu sei como caminho e pra onde caminho junto com os demais, só não sei dizer se é um caminho reversível. Se falar sobre isso pode evitar o curso das coisas. Você sabe, leitor? Você tem medo de estar redondamente errado?
O muro já existe, ali no deserto árido entre o México e os Estados Unidos. As coisas já existem antes de serem construídas, uma vez que as coisas são primeiro símbolos. Veja, construímos casas para nós mesmos como forma de abrigo, mas as casas poderiam ter milhões de formatos diferentes e ainda assim cumprir a função de nos abrigar da chuva, do frio, nos dar segurança e conforto. As casas são todas assim como são porque este jeito de construir casas é um símbolo, as casas existem antes de existirem propriamente. Já existem nas palavras. da mesma forma, já germina o muro nos discursos de ódio, na necessidade de se sentir medo do outro, de querer afastá-lo. Já foi dada a base do muro. Já vivemos separados outra vez, como em Berlim.
Berlim is here, inside of me.
E por isso eu entro nesse território do incerto, do paradoxo: as coisas já existem desde que delas falamos, desde que Trump, penteando seu cabelo numa ordinária manhã na sua torre alta que príncipe nenhum jamais tentou escalar, teve a idéia de se candidatar a presidente, de prometer aquele bendido muro. As coisas já existem dentro da gente, inside of us, através das palavras. Mas essas palavras, como as que escrevo aqui, não são fortes o bastante para destruir as coisas que elas constroem.
Uma vez que o muro existe, será preciso muito mais que essas palavras para derrubá-lo. Será preciso o bom e velho estilo Miley Cirus demolindo tudo.
Miley Cirus is here, inside of me.
As palavras constroem. As ações destroem.
O muro de Berlim caiu com marretas. O do México talvez caia também um dia. Não sei, é incerto. O certo é que enquanto isso não acontece, enquanto ele ainda está lá, aqui, em todo lugar, em forma de palavras, de ideias e de tijolos, nos separando a todos, eu, como escritor, ou protótipo de escritor, aquela profissão perdida da qual Machado de Assis fazia parte quando deu aquele título para aquele primeiro capitulo daquele livro que todo mundo diz que leu, tenho a obrigação de tentar construir algo também, de plantar algo através das palavras. Talvez não algo tão universal e de interesse global como um muro nas Américas, talvez só, às vezes, um poema de amor, mas é a minha função. Dizer que essa divisão só nos arrasta para uma teia de solidão cada vez maior, plantar uma semente, em verso, em prosa, em bossa, pra falar de amor.
Porque as palavras estão aqui, dentro de mim, e de você também. A força que faz com que muros se construam, ou pontes, ou foguetes rumo à sétima lua de Saturno não é plutônio, são palavras.
E agora, relendo, essa ideia de tudo que se fez se fez através de palavras é até que meio machadiana, né, não? aquele Bentinho espalhando para todo mundo que Capitu o traiu, escrevendo até livro, safado.
Na falta de título melhor, fica esse mesmo.
Afinal, Bentinho is here, inside of me.
Com amor e medo,
Jedielson Sant' Ana

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